Tenho feito paradas regulares na livraria do meu bairro, que de livraria de bairro não tem nada, pois já é uma das maiores redes de livrarias do Brasil. Tendo a achar que ela ainda é basicamente presente no Rio de Janeiro, mas estou com preguiça de pesquisar. Pouco importa também.
Estou aqui numa dessas paradas, passando a mão pelos lançamentos, levando um mais interessante ao nariz para sentir se seu cheiro me seduz, quando ouço uma voz conhecida.
A voz fala com um cachorro, o que cria algum tipo de discrepância auditiva que eu ainda não sabia explicar.
Tento me concentrar nos livros. Estou tentando confirmar a tendência que percebi sobre a presença de fósforos acesos nas capas dos recém-lançados quando a voz se manifesta de novo, respondendo à sua filha. Que, aliás, não era o cachorro, sem julgamento de valor (eu chamo Filomena de filha e está tudo bem).
Não resisto mais e olho.
É um repórter famoso. Ganhou ainda mais notoriedade ao assumir a apresentação de um dos maiores jornais do horário nobre.
Engraçado ver pessoas famosas fora do seu habitat natural, que, para mim, continua sendo um retângulo de LEDs e pixels variados de uma televisão. Mesmo sem o terno, estava bem vestido, com a coleira do seu poodle caramelo em uma das mãos e a outra estendida para pegar a mão da filha.
Vão embora e volto minha atenção para os protagonistas da loja, prestes a concluir que dois fósforos não fazem uma fogueira, quando a voz aparece de novo.
Sorrio para mim mesma enquanto ele passa por mim e cumprimenta um funcionário com aquela familiaridade instantânea que só uma celebridade parece conseguir criar, começando a me sentir cativada pelo quão cotidiana uma vida famosa pode ser.
Logo em seguida, ouço:
— Minha filha pode pegar um daqueles barcos da vitrine?
O funcionário, um pouco sem graça, explica que os barcos fazem parte da decoração montada para a FLIP, que acontece na semana seguinte em Paraty.
Há um breve silêncio. Então ele responde:
— A loja é patrocinadora oficial... mas pode, sim.
Sou acometida por uma certeza: a única coisa de bairro ali sou eu.
A mim, dificilmente ofereceriam um barco da vitrine. Mesmo que, dali a alguns dias, quem estivesse na Casa Gueto da FLIP lançando um livro fosse eu.


