As mensagens que você mandou (e eu nunca vi)
Uma crônica sobre mensagens no Instagram, algoritmo e ego digital
Acho que não é novidade para muita gente que eu estou prestes a publicar um livro novo. Quem está atento sabe que algumas crônicas que começaram no Instagram, a partir dos meus encontros e das mensagens no Instagram trocadas em aplicativos de relacionamento, viraram inspiração para uma coletânea inteira de situações cômicas, constrangedoras e todo tipo de coisa que só os solteiros que usam aplicativos de encontro são capazes de imaginar.
Mas esse texto não é para falar do livro novo. Assim que eu tiver a data certa do lançamento eu volto a esse assunto. Eu queria mesmo falar só do Instagram (e por isso, e só por isso, essa crônica vai ser publicada tanto no insta quanto no Substack, onde ficam todos os meus textos há muito tempo).
Voltando… eu já sabia que o Instagram também podia ser uma fonte de possíveis novos encontros. Um cara com quem eu saí dizia que não precisava de app nenhum, que toda a chavecada (isso é gíria correta ainda? Já nem sei mais se estou ultrapassada) necessária era feita por ele diretamente pelo Instagram. Também já ouvi de famosos e subcelebridades que trocam mensagens sem se conhecerem e acabam se arrumando entre eles mesmos (mas isso é círculo fechado, não serve para nós, simples mortais).
O que eu não sabia era que EU estava sendo alvo desse tipo de mensagem. Quer dizer, lá para 2023 ou 2024 eu recebi uma outra DM ousada demais e publiquei algumas coisas sobre o Instagram não ser vitrine do meu corpo, mas sim das minhas ideias, além de outras reflexões do tipo. As mensagens pararam e eu me esqueci completamente do assunto. É bem verdade também que, à medida que minha escrita evoluiu, eu fui me interessando mais por assuntos femininos e o perfil dos meus seguidores mudou um pouco, invertendo para uma maioria de mulheres.
Falando ainda sobre o perfil do Instagram, ele está sob revisão depois dessas mudanças todas e, por conta disso, estou olhando os parâmetros de bloqueio e mensagens ocultadas. E assim eu chego, finalmente, no coração desse texto.
Quem tem perfil público e aberto, como o meu, pode escolher receber mensagens de qualquer pessoa ou só de pessoas classificadas. Qualquer mensagem de outro usuário que não esteja nessa seleta lista entra para uma aba chamada “pedidos”. Eu sempre olho essa aba porque eu gosto de me comunicar com quem me segue. Gosto de ouvir o retorno sobre o que eu penso e falo — é o motivo de eu estar aqui escancarando a minha vida: tocar a vida (através das ideias) de outras pessoas.
Pois bem, hoje, agorinha — não tem nem uma hora —, descobri que existe também um algoritmo que filtra essas mensagens da aba de pedidos e que oculta tudo aquilo que julga não me interessar (como, por exemplo, um spam chato de gerente de bets que fica pedindo para a gente anunciar). Propício, não?
Não. Descobri ali um montão de mensagens que datam de 2023 para cá, de vários de vocês, que me seguem e acham que ficaram no vácuo. Eu não estou exagerando quando eu falo que deve ter uma centena delas, porque eu ainda não consegui descer a lista até o fim — cada vez aparece mais.
Estou me divertindo ao ler as coisas dali? Estou. Mas também estou um pouco chocada com a forma como os homens (ainda não achei nenhuma mensagem de mulher — mulheres, vocês não flertam no Instagram ou só não flertam comigo?) realmente usam o Instagram para flertar (verbo usado pela minha avó). É uma quantidade de “Oi” e variações de “Oi, tudo bem?” ou “vc é linda” (e todas as variações na pontuação depois do “linda” também) que eu nem sabia que existia.
O choque vem com uma pitada de lisonjeio, com certeza, mas é majoritariamente choque. Ele piora quando eu percebo que, na falta de uma resposta, a pessoa deixa de me seguir. Poxa, não se interessou nem um pouquinho pelo meu cérebro? Isso explica por que perdi cerca de 2 mil seguidores ao longo desse tempo (tá, provavelmente muitos não gostavam do meu conteúdo e só alguns tenham ficado magoados pela falta de resposta). O filtro na aba de pedidos provavelmente explica também por que eu mandei tantas mensagens para outras pessoas interessantes que eu sigo e fiquei no vácuo (essa gíria ainda está valendo, confere?). Com certeza foi por isso que o George Clooney e o João Vicente de Castro nunca me responderam.
Enfim, depois de alguns anos de atraso, agradeço os elogios e demais mensagens. Responderei àqueles que comentam sobre meu trabalho e seguirei sem comentar as pequenas ousadias recebidas descabidamente nesse canal de comunicação (eu estou nos apps de relacionamento — me procura lá, que é o lugar para isso).
Antes de me despedir, deixo um alento: não fique triste se você mandar DM para alguém e ficar sem resposta. Pode ser apenas a configuração da aba de pedidos. Exatamente como acontece com os famosos e subcelebridades.
Opa. Será que eu virei, tipo, uma subcelebridade da subcelebridade?


