Sim, sim, sim. Pensei que depois de me aposentar, mudar completamente de atuação e passar a ajudar os outros a fazer o mesmo, eu estaria “curada” dos machucados da vida profissional. Ledo engano.
Peguei um voo para SP de manhã cedo para ir autografar o livro novo na Bienal de lá. A noite anterior foi longa, tive aula até tarde, arrumei a mala necessária para fazer qualquer lançamento da “Pegadora” (se você ainda não viu um, não sabe o que está perdendo), deixei a roupa do dia seguinte pronta e fui dormir, com o despertador acertado para ter tempo até de tomar café da manhã antes de sair.
Eis que o despertador toca de manhã e sou tomada por uma ansiedade inexplicável. Ela foi seguida pela lembrança de todas as manhãs corridas, em que eu acordava com o tempo certo de chegar no aeroporto, pegar um avião e correr o dia todo para dar conta do trabalho. Juro que minha respiração até acelerou.
Lembrei que essa não era mais minha vida, que eu tinha escolhido ir para SP, tinha escolhido o horário do meu lançamento, com tempo para ir com calma e depois voltar com calma para casa. Lembrei que minha vida não era mais aquela correria sem fim, sempre devendo alguma coisa para alguém, sempre correndo atrás do relógio cujos braços cismavam em ser mais rápidos do que minhas pernas e meu cérebro juntos.
Pois é, ninguém é perfeito. A gente até pode colocar a máscara, agir como se fosse invencível, mas aquele pequeno gatilho ainda está lá.
Tem feridas que curam, tem feridas que deixam casca, tem aquelas que deixam cicatriz… mas hoje lembrei também da ferida invisível, que se manifesta quando você menos espera. Mas acredite, ela está lá.


