Entre terremotos e desertos
Há momentos em que pequenos ajustes não bastam — e a vida exige uma nova estrutura.
Escrevo esse texto literalmente a caminho do Deserto do Saara. Confesso que já não sei se é meu terceiro ou quarto dia no Marrocos. Os dias têm sido tão cheios de coisas novas que me perdi no tempo (não que no Brasil eu fosse muito melhor, mas pelo menos tinha ideia do dia da semana).
Vim para o Marrocos para ter uma perspectiva diferente e já tenho material suficiente para escrever por meses, mas hoje queria falar especialmente sobre uma das coisas que mais vi em todos os lugares: obras e construções.
Na verdade, a grande maioria é de reconstruções, necessárias após os terremotos que atingiram o país. Assim como a chuva nos atormenta no Brasil, aqui os estragos foram causados pela acomodação das placas tectônicas, que não deviam estar lá muito confortáveis.
Há outro tipo de reconstrução rolando também. Em alguns lugares mais pobres, os tijolos das casas são feitos de barro. As paredes são feitas desse tijolo e os tetos, de uma mistura com algo que parece palha, barro e estruturas de madeira. É um material que funciona muito bem no sol do deserto, regulando a temperatura das moradias tanto no calor quanto no frio. O problema é a curta estação de chuvas, que, quando chega, destrói lentamente as casas. E aí recomeça o processo de construção. Aqui não há lutar contra o clima, mas sim a necessidade de conviver com ele.
Tenho comparado as reconstruções marroquinas com aquelas que precisamos fazer nas nossas vidas.
De tempos em tempos fazemos ajustes para nos adaptarmos ao meio externo. Mas, uma vez ou outra, as placas tectônicas do desconforto se mexem e precisamos de uma mudança mais radical.
Na nossa carreira é a mesma coisa. Temos a rotina de trabalho do dia a dia; alguns esperam uma ascensão (e se preparam para ela), outros se colocam no lugar errado ou não se preparam o suficiente para o que devem fazer. E temos placas tectônicas, como uma demissão, a quebra de um negócio, uma expatriação ou uma situação pessoal, que trazem uma grande mudança no nosso rumo profissional.
Assim é o ciclo da vida: de tempos em tempos, temos que fazer uma manutenção em nós mesmos ou até nos reconstruir.



