Para quem nunca estudou Letras e só recentemente começou a se aventurar no exercício da escrita, acho que sou bem ousada. Logo explico: adoro inventar palavras. Esse dom não é algo novo. É um hobby que pratico desde criança com a minha irmã, mas que tinha ficado um pouco de lado na vida adulta.
Pois bem, minha nova palavra é um verbo. Minto, é um substantivo que logo virou verbo porque também precisava existir como ação.
A palavra é “chororinho”.
Ela nasceu do quase imperceptível som que Filomena emite quando quer um dengo. Não chega a ser um choro, nem uma reclamação. Às vezes parece o arrulhar de uma pomba branca, de barriguinha rosada.
Infelizmente, nos últimos trinta dias, esse som ficou muito mais presente na minha vida. Por um tempo, como choro persistente de alguém que não sabe usar palavras para reclamar da dor. Depois, em ritmo intervalado, quando o motivo da dor já estava mapeado e o remédio estava perto da sua hora de renovação.
Agora, persiste o chororinho de quem ainda não se recuperou de uma anemia, ainda não consegue andar direito e sofre com o frio de 20 graus do Rio de Janeiro.
Lembrem-se de que Filomena é cega e, por isso, não dorme na cama comigo. Tenho um medo enorme de ela cair. Chororenta como ela está, passei a acordar ao longo da noite com seus pedidos de colo. Ela, com medo de cair e eu, de deixá-la cair, passamos a dormir com ela agarrada ao meu pescoço, e as manhãs, coincidentemente, ficaram marcadas por torcicolos.
Confesso que esses dias andei chororando também. Não existe nada pior do que ver quem se ama sofrer. Era tanto chororô (essa eu não inventei) pela casa que resolvi tomar uma atitude drástica: mudei minha cama de lugar. O maior móvel do quarto não ocupa mais o lugar central. Foi deslocado para ficar grudado entre uma parede e o armário de roupas.
Não está bonito. Não está prático trocar de roupa. Não sei quanto tempo vou aguentar essa nova arquitetura.
O que sei é que o chororinho passou. Agora durmo embalada por um roquinho, com um corpinho quente encostado nas minhas costas.
Às vezes penso que amar é isso, inventar palavras, reorganizar um quarto inteiro para que alguém consiga dormir em paz. Mesmo que, no dia seguinte, a gente acorde toda torta,


