Semana passada a revista FastCompany publicou um artigo chamado Como “9 to 5” transformou Dolly Parton na voz das mulheres trabalhadoras. A leitura me deixou com sentimentos contraditórios porque imediatamente lembrei que a música icônica do filme deu sonografia a uma das minhas primeiras apresentações públicas de jazz na infância.
A época, a professora nos colocou de collant lilás, meia-calça arrastão e um casaqueto de lantejoulas vermelhas com mangas bufantes e um grande laçarote na frente. Assim como no começo do filme (que a tradução brasileira chamou de “Como eliminar seu chefe”), que mostra trabalhadores (mas principalmente trabalhadoras) correndo para chegar em seu trabalho às 9 da manhã em ponto, nós, pequenas crianças, corríamos pelo palco à meia-luz, arrumando nossas fantasias, passando batom, calçando a sapatilha.
Eu ainda não sabia o que estava dançando
À medida que a voz de Dolly Parton subia e a música começava, nos posicionávamos e dançamos por algo que eu ainda não fazia ideia que pautaria minha vida mais de trinta anos depois (e olha que eu ainda lembro, até hoje, da coreografia do refrão).
A sinopse do filme de 1980 (quando eu ainda não tinha um ano completo e minha única noção de injustiça ainda era não ter minha fralda trocada no exato minuto em que ela era molhada) é basicamente um retrato do que nossa sociedade, e as mulheres em particular, vivemos desde então: Dolly é secretária de um chefe sexista que frequentemente a assedia. Ela se une a uma Jane Fonda, que interpreta uma recém-contratada que acabou de se divorciar, e a uma veterana que teve uma promoção negada para se livrar do chefe e lutar de frente contra os problemas do ambiente de trabalho, garantindo salários iguais para os colegas e até criando uma creche.
Não preciso dizer que o filme foi baseado em histórias muito reais de mulheres, que, colocadas em uma comédia, conseguiram alcançar muito mais pessoas do que se tivessem feito um documentário sobre o que estava acontecendo com as mulheres no trabalho.
Pena que nem tudo mudou de lá para cá….
Quarenta anos depois, a pauta continua
Essa semana perdemos, aos 92 anos, Gloria Steinem, uma escritora que transformou histórias pessoais e experiências de mulheres em instrumento de mudança social. Jornalista e escritora, se infiltrou como coelhinha da Playboy para narrar o mundo de salários baixos, condições de trabalho abusivas e o tratamento sexista dado às mulheres por trás das portas daquela mansão.
Gloria também trouxe à luz temas-tabu, como o aborto, trabalho, envelhecimento, autoestima, política, corpo, relações de poder e identidade, que permeiam seus diversos livros e conversam bastante com Renata, Dolly, Fonda e a vontade de eventualmente eliminar um dos seus chefes.
O que a pequena Renata da década de 1980 não poderia imaginar é que, 40 anos depois, a pauta ainda seria relevante. É óbvio que houve avanços: a Constituição e a CLT nos garantem direitos iguais (mas quem está fiscalizando?), as práticas de ESG pedem que as empresas mostrem seus esforços para ficarem bem na foto. Mas continuamos lutando, cada uma a seu modo, para melhorar as coisas para nosso lado.
Algumas cantam, fazem filmes, legislam1, escrevem. Só não pode mais matar o chefe… não vale o seu réu primário.
Esse definitivamente não ia ser um texto sobre as eleições, mas não podemos ignorar que elas acontecerão em 3 semanas. Que tal votar em candidatas mulheres? Que tal estudar suas propostas?


