Mais uma da Pegadora: a pressa dele, a minha paz
Uma crônica sobre disponibilidade, expectativa e limites.
Contando uma historinha nova que não está no livro.
Estou um dia num aplicativo de relacionamento e dou match com um professor de engenharia que rapidamente pediu meu WhatsApp. Expliquei que gostava de conversar um pouco mais para ver se havia interesses em comum antes de evoluirmos de plataforma, e a conversa ficou ali, girando em torno do fato de ambos sermos engenheiros.
Em determinado momento fui almoçar e cuidar de Filomena. Quando voltei ao app, tinha uma mensagem perguntando se eu tinha “travado”. Respondi que não, que tinha ficado ocupada com outras coisas e não pude responder.
Ele rebateu que, por isso, o WhatsApp era melhor. Eu complementei que, mesmo no WhatsApp, provavelmente não teria respondido, colocando aquele emoji da gargalhada.
Eu ia continuar explicando que hoje vivo num ritmo mais lento, tentando focar naquilo que estou fazendo no momento, em vez de participar de mil conversas ao mesmo tempo ou me orgulhar de ser multitarefa.
Mas não deu tempo.
Ele escreveu:
— Essa informação é muito importante. Assim não perco tempo com você.
Sem saber se aquilo era uma resposta irônica — que até combinaria com o emoji da gargalhada — soltei um:
— Eita.
Ele desfez a conexão. Não era ironia.
Desde que saí da minha última empresa e, principalmente, depois que perdi meus pais, não vejo motivo para checar o telefone a cada minuto. Ele nunca mais saiu do silencioso, e vivo melhor assim.
Descobri que quase tudo que é importante encontra um jeito de chegar até mim.
E, sinceramente, nenhum date vale a pena para eu voltar a ser escrava de um celular.


