Marrocos: o Luxo do Lado de Dentro
Entre excessos, silêncios e códigos invisíveis, um país que se revela menos no que mostra — e mais no que esconde.
Tenho cerca de 48 horas em terras marroquinas e não sei por onde começar. Isso não é normal, para mim. Normalmente tenho o começo do texto e o resto eu desenrolo à medida que escrevo, mas hoje eu tenho mas meio e fim, do que uma abertura impactante, digna desse país.
Confesso que vim sem expectativa e sem nenhuma pesquisa antecipada. Imaginava que seria algo “diferente”, mas não saberia explicar o porquê.
Descrevo então algumas coisas que vi, que ouvi, que senti nesses dois dias que pareceram cinco.
Marrakesh é uma cidade de contrastes: tem a Medina (bairro) velha e a Medina nova (onde ficam os hotéis, as luzes, o álcool, os turistas).
Quer dizer, turistas há em cada canto, seja nos labirintos feitos de quartos minúsculos num dormitório de estudantes, seja numa ruela esquisita de um souk (mercado aberto). Turistas brotam e os locais me surpreenderam entendendo até português (tá, portunhol, crédito para eles, mesmo assim).
A cor de argila vermelha predomina nas construções da cidade, não porque é o material disponível, como eu pensava, mas porque é o mais inteligente para manter o aspecto conservado das casas.
Aliás, as casas merecem um parágrafo especial que talvez ajude a entender o marroquino: elas não são luxuosas por fora. Pelo contrário, o marroquino quer parecer o mais comum possível para não despertar a inveja. Por fora das casas e das roupas, tudo o mais simples. Por dentro, um luxo e uma necessidade de agradar inimagináveis.
A lógica aqui é essa: tratar o outro com superioridade, ou pelo menos igualdade, elogiá-lo, reconhecê-lo, porque, assim, não se desperta a inveja. Sem inveja, a vida corre melhor.
Para a rua, as piores roupas, os tecidos mais simples. Para dentro de casa, verdadeiros vestidos de baile.
As cores, assim como os cheiros, aparecem em abundância. Até aqui, não tive nenhuma experiência gustativa que tenha se destacado, ao contrário do que eu esperava (confesso que espero que continue assim).
Marrakesh é barulhenta, todo o tempo, o tempo todo: são os carros, motos, tuk-tuks, carruagens puxadas a cavalo, carrinhos de mão e pessoas andando em todas as direções, que se entendem num caos próprio e ritmo apressado. É frenética, contrastante e claustrofóbica.
Até que o sol se move e é hora da salat (prece). Na alvorada, no meio do dia, à tarde, no pôr do sol e à noite, todos os barulhos cessam ao ouvir o chamado das mesquitas. O silêncio grita, enquanto os alto-falantes levam para toda a cidade as rezas que regem essa região.



