Quando foi que o Brasileiro perdeu a esperança
O futebol como espelho de uma sociedade que aprendeu a esperar sempre o pior.
Época de Copa do Mundo é marcada por bolões, decoração nas ruas, um mar amarelo que invade os transportes públicos e por todo brasileiro virando expert de futebol.
Todo mundo tem uma opinião, uma crítica a fazer à escalação do técnico (ou do Mister, vá lá), uma ideia de jogada capaz de virar o jogo.
Desde que me entendo por gente foi assim, e já se foram 12 Copas. Vi o Brasil ser campeão duas vezes, sendo a vitória de 1994 a que tem um gosto especial para mim. Foi ali que virei fã incondicional do Dunga (mas essa é uma história para outro texto).
Nas outras dez Copas que o país perdeu, lembro de começarmos sempre achando que íamos ganhar, mesmo quando não éramos os favoritos. Vestir a camisa amarela da seleção sempre significou acreditar que havia uma chance. Talvez, no fundo, significasse também acreditar no próprio país.
Desta vez havia alguma coisa diferente
Mas este ano não senti isso. Nas ruas por onde passo, ouço comentários sobre o quanto jogamos mal. Gente torcendo para que o time seja eliminado logo (assim a economia não para). “Se vai perder mesmo, que perca logo.” “O Brasil não tem time para ganhar uma Copa do Mundo.”
Bom, eu não tenho conhecimento suficiente para julgar a qualidade do nosso time. Não consigo nem me considerar parte dos 200 milhões de pseudotécnicos que aparecem a cada quatro anos.
Mas consigo perceber que a atmosfera em torno do campeonato mudou.
Esperar o pior virou mecanismo de defesa?
Quando foi que os brasileiros perderam a esperança? Por que agora preferimos esperar o pior para não nos decepcionarmos?
Será que foi quando a amarelinha foi sequestrada e virou símbolo de algo menor do que o próprio país? Ou será que foi a tão recente pandemia, que ainda nos assombra com seu rastro de pessimismo?
Talvez seja o burnout que impede tantas pessoas de aproveitarem qualquer coisa além do trabalho. Talvez sejam as guerras que seguem ocupando os noticiários com mísseis e torpedos que nunca têm como alvo o espaço do gol.
Ou talvez seja simplesmente o acúmulo.
Nos acostumamos a perder tantas coisas — pessoas, dinheiro, tempo, previsibilidade, confiança — que passamos a acreditar que esperar pouco dói menos do que esperar muito.
Não tenho respostas.
Mas tenho esperança. Nunca deixei de tê-la, aliás.
Não sei se o Brasil vai ganhar esta Copa. Nem sei se deveria usar o futebol como termômetro de um país inteiro. Mas sei reconhecer quando uma conversa muda.
E, nos últimos anos, ela mudou. Falamos menos sobre o que queremos construir e mais sobre o que esperamos perder. Talvez seja esse o jogo que mais deveria nos preocupar.


