Quem sou eu e quem é você?
Uma crônica sobre reinvenção, identidade e as perguntas que confundem até o algoritmo do Instagram
O título dessa crônica foi tirado de uma música do Leo Jaime e vou usá-lo para tentar justificar minha ausência por aqui. Não que eu tenha escrito ou trabalhado pouco, mas essa forma totalmente livre que só o substack me permite fazer estava ausente da minha rotina.
Quem sou eu e quem é você / Nessa história eu não sei dizer /Mas eu acredito que ninguém tenha vindo/ Pro mundo a passeio
Leo Jaime
A verdade é que meus muitos eus — talvez fruto de um transtorno de múltiplas personalidades extremamente produtivas — inventaram, mais uma vez, coisas demais para fazer. Os pratinhos da minha balança ficaram desequilibrados.
É lançamento de livro acontecendo no dia 6/6 na Feira do Livro em SP. É nova turma de Mentoria. Coluna da Revista AnaMaria. Viagem para Marrocos. A escrita de mais dois livros no forno, revisão de Instagram...
Ufa.
Para quem resolveu ser adepta do slow living e se aposentar, não estou fazendo um bom trabalho.
Vou me apegar ao último item da lista acima, que é o Instagram, para voltar ao fio da meada. Quem me acompanha desde 2023, quando realmente comecei a escrever, sabe que aquele foi meu primeiro canal de publicação. Estava empregada, ainda planejando o sabático, não sabia o que eu ia querer fazer da vida depois dele e, para piorar, vivendo todos os lutos das perdas no caminho (gostou do que fiz aqui? Acabei de fazer mais uma divulgação do meu próprio livro, aquele lançado no ano passado).
Foi aí que comecei a escrever, meio que para exorcizar meus fantasmas, sempre dentro dos 2200 caracteres que o insta nos limita e…. vocês foram gostando (loucos). Ali descobri que gostava de escrever crônicas, mas também sentia a necessidade do romance autobiográfico sobre a busca pela maternidade e os contrastes com a vida corporativa.
Foi tomando consciência desse gancho, que, em 2025 eu fui então a escritora que do livro sobre maternidade e a vida corporativa e, aos poucos, começou a ganhar voz sobre outras pautas femininas. Foram se abrindo espaços para que eu falasse sobre as mulheres no mercado de trabalho, busca por igualdade e equiparação de gênero, autonomia feminina. Escrevi tanto sobre isso que criei uma aba aqui só para deixar os links das matérias de revistas, jornais, podcasts… Eventualmente me levando a escrever uma coluna fixa semanal para a Revista AnaMaria sobre carreiras.
Logo nas minhas primeiras colunas percebi que queria contar mais sobre o planejamento do meu sabático, sobre as dificuldades em tomar decisões, sobre a rede de apoio que me ajudou, enfim…queria dividir o que eu descobri para que outras pessoas fizessem uma transição de carreira (seja uma demissão, promoção, licença, pausa para intercâmbio, enfim) um pouco mais tranquila do que a minha. Passei dois meses na prancheta desenhando um método e mais três testando ele com pessoas de confiança, para finalmente nascer o Ponto de Inflexão, meu método próprio de mentoria, que a princípio seria focado em mulheres mas que se mostrou também eficaz com homens.
O que isso tudo tem a ver com o meu Instagram? Apesar de ter mais de 26 mil seguidores, o Instagram simplesmente deixou de mostrar meu conteúdo para eles. Fiquei irritada. Fiz um diagnóstico para entender o que estava acontecendo e descobri algo desconfortável: o problema não era o algoritmo. Era eu. Se eu mesma não sabia mais identificar quem eu era do meio dessa bagunça toda aí, como é que o algoritmo ia entender o meu conteúdo.
Esse diagnóstico do Instagram também veio com a necessidade de repensar minha identidade e minha nova narrativa. Quem é a Renata agora?
“Eu sou uma mulher, que defende as pautas femininas, que sofreu preconceito no trabalho e machismo estrutural, que precisou mudar de carreira e se reinventar como escritora. Na minha escrita, minhas personagens são sempre femininas e por causa dessa trajetória toda aí, pela capacidade de me reinventar, eu virei mentora para que outras mulheres façam o mesmo.”
Óbvio que isso tudo não coube na nova bio do insta mas serviu de norte para algo mais enxuto e fácil para o algoritmo. Para mim mesma também. E termino esse texto com voltando na pergunta do Leo Jaime: você sabe quem é você?
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