Eu sempre digo que minha vida é livro aberto (ou quatro livros, por enquanto), mas talvez você não saiba que venho de uma família judaica.
Depois que meus pais morreram, recebi de herança uma caixa grande de fotografias em preto e branco de pessoas que eu não conhecia. Sem ter filhos para simplesmente passar a caixa adiante, resolvi eu mesma abri-la para desvendar a história que herdei.
As fotos são das famílias polonesas dos meus avós paternos. Eu cresci sabendo que eles tinham sido perseguidos e presos num campo de concentração, e minha imaginação infantil gravou na minha memória uma cena inexistente em que eles fugiam, achavam uma casa abandonada no meio do caminho e lá os esperava um grande banquete.
A verdade é bem mais dura do que essa. A verdade é que muitas das pessoas que aparecem nas fotos que estão na minha caixa nem sobreviveram ao Holocausto. Crianças, maridos, esposas. Famílias que se desfizeram na tentativa de dizimar nosso povo.
Minha avó perdeu o marido, mas sobreviveu. Ao se reunir com o irmão, que também sobreviveu, encontrou seu cunhado também vivo, e eles se casaram. Essa era a família que eu conhecia. Até abrir a caixa.
Ser a responsável pela memória de tanta gente que eu não conhecia me fez querer contar não só a minha história, mas a deles também.
Meu primo me proporcionou isso. Juntos, começamos hoje a jornada de descoberta das raízes mais profundas da nossa família, exatamente como no filme A Verdadeira Dor (A Real Pain, em inglês).
Imagino que serão dias de dor, de encarar o pior que o ser humano pode fazer a outro, mas também serão dias de homenagem àqueles que estavam fechados na caixa. Que enfim suas vidas sejam celebradas.


